Resenha Bate papo – Através do espelho mágico : ensinar e aprender história por meio de telenovelas

Por Thainara Dutra Tôrres*

O professor, antropólogo e historiador Giovani José da Silva, deixa claro o seu gosto pelas telenovelas, demonstrando em sua fala um vasto conhecimento sobre a história das mesmas. Ele que viveu oito anos em uma tribo kadiwéu, acabou sendo convidado no ano de 2005, para ser colaborador do núcleo indígena da novela Alma Gêmea de autoria de Walcyr Carrasco, tendo trabalhado ao lado de personalidades como o diretor Jorge Fernando e demais atores globais. Com isso, percebe-se que o conhecimento deste historiador pelas telenovelas e pela história das mesmas, foi adquirido não apenas de modo teórico, mas de maneira prática.

Bate-papo sobre ensino de história com Giovani José da Silva – Através do espelho mágico: ensinar e aprender História por meio de telenovelas. LAPEHIS UFVJM. 15/06/2021

A formação acadêmica de Giovani e a atuação do mesmo em um campo como a televisão brasileira comprova que universos considerados tão divergentes, podem ser aliados. À vista disso, como o próprio Giovani dispõe, as telenovelas no Brasil chegam à década de cinquenta e trazem a força de traduzir para um público, em grande parte analfabeto, a literatura brasileira em imagens e sons. Com isso, ele observa que a telenovela pode ser considerada o livro ou mesmo a cartilha em que os brasileiros aprenderam a ler o mundo, já que importantes autores da literatura brasileira como Érico Veríssimo, João Guimarães Rosa, Eça de Queiroz, Jorge Amado, entre outros, puderam ser conhecidos pelo público brasileiro graças a estas produções audiovisuais. Logo, para ele, em um país onde ainda se lê tão pouco, a novela funciona como um dos suportes de leitura de mundo das nossas gentes.

Ademais, buscando chamar a atenção para o fato de que a novela não tem a obrigação de trazer a verdade, mas de ser verossímil, Giovani, parafraseando Ciro Marcondes, indica que a televisão, não traz mundos, mas sim os fabrica. Exatamente por isso, é que observa-se, que no caso das produções de época, faz-se necessário ter em mente que elas nem sempre irão dar consta de inserir os elementos próprios da época em que estão narrando, como é o caso das novelas que se referem à escravidão. Nestes casos, onde a verossimilhança enfatizada por Giovane é prejudicada, entende-se que mesmo assim, as telenovelas podem ser usadas no ensino de história ou mesmo como uma fonte histórica de um determinado tempo, ainda que não seja o tempo ao qual esta procura traduzir.

Nesse sentido é importante observar, como faz Christian Godoi (2005) em seu artigo sobre o livro O Brasil Antenado de Esther Hamburger, que ao contrário do que sugere o senso comum, as telenovelas nem sempre carregam discursos reacionários. A resistência presente no texto de alguns autores, especialmente quando ligados à esquerda, muitas vezes fizeram com que novelas fossem censuradas e proibidas de ser veiculadas, mesmo estando com inúmeros capítulos gravados. Igualmente, acrescenta Giovani que desde o seu início, as telenovelas são capazes de trazer à tona questões urgentes em nossa sociedade, como no exemplo da produção A Cabana do pai Tomáz, na qual se tem Ruth de Souza como a primeira protagonista negra e também o controverso e polêmico caso de caracterização do ator Sérgio Cardoso, que apesar de branco foi escalado para viver um negro nessa mesma obra. Do mesmo modo, relembrando outro exemplo citado por Giovani, tem-se o caso da novela A Gordinha, que trouxe a atriz Nicete Bruno como uma protagonista fora dos padrões estéticos, no ano de 1970, fato que mais uma vez pode comprovar a potência deste mecanismo para mobilizar a sociedade e despertá-la para os condicionamentos impostos.

Fotograma da transmissão do Bate-papo sobre ensino de história com Giovani José da Silva. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oM5uk48ndyA

Assim, nota-se que mesmo em novelas mais datadas, situações atuais podem ser invocadas, a fim de que se tragam subsídios em torno de questões como as étnico-raciais, seja para problematizar a pouca representação da população negra ou mesmo a forma como certas etnias e grupos minoritários são representados. Exemplo disso é o caso da personagem Zilda, empregada doméstica presente em Laços de Família de autoria de Manoel Carlos, reprisada recentemente, onde se tem o Bairro Leblon sempre idealizado e no qual a pobreza e as mazelas sociais são quase inexistentes. Destarte, as trilhas sonoras, como “A gente vai levando” de Chico Buarque e Caetano Veloso, na novela Através do Espelho Mágico, citada por Silva, ou mesmo “Brasil” cantata por Gal Costa na abertura de Vale Tudo, inserem, em maior ou menor grau, o público ao debate social, político e histórico.

Diante dessa perspectiva, alerta Giovani, que independente do posicionamento dos docentes, que por vezes assumem um preconceito para com as telenovelas, grande parte dos estudantes consomem este tipo de conteúdo e se inspiram em personagens. A partir disso, adverte-se que os professores acabam por perderem a oportunidade de entender o universo de seus alunos, já que esse entendimento pode ser capaz de atraí-los para a linguagem histórica, que por vezes parece abstrata, pouco prática por ser remota. De tal modo, se ao contrário, professores se mostrarem aptos a discutirem sobre este tipo de conteúdo em sala de aula, diversas alternativas podem ser utilizadas como instrumentos de ensino, a fim de potencializar a absorção dos conteúdos expostos. Assim sendo, no caso de novelas baseadas em obras literárias, por exemplo, sobretudo aquelas em que há contextos históricos, pode-se incentivar a leitura, propondo comparações das obras audiovisuais com as literárias. Ao mesmo tempo as aberturas de telenovelas, lembradas Giovani, podem ser utilizadas na sala de aula, já que muitas vezes trazem importantes referências, como no exemplo da novela Lado a Lado, que trouxe uma ambientação do final século XIX e início do XX, referindo-se a questões como a Revolta da Chibata e o surgimento das primeiras favelas.

Não obstante, quando Giovani trata do livro História Pública, o qual escreveu um capítulo sobre o uso de telenovelas no ensino de história, o mesmo aponta os preconceitos e as resistências que sofre por assumir o seu gosto e por considerar as telenovelas de suma relevância para a cultura da sociedade. De acordo com essa ideia, a História Pública, nas palavras de Silva é a história que penetra por todos os espaços, que sai dos ciclos restritos dos especialistas. Assim, entende-se que a importância desta modalidade histórica está nas populares novelas “das oito”, que por vezes, como lembra Christian Godoi (2005), tornam-se palco de manifestação dos problemas nacionais. Logo, episódios como o da minissérie Anos Rebeldes, que tem como contexto a era Collor, foi considerada por alguns o motivo do engajamento dos jovens “caras pintadas”, bem como O Rei do Gado, em 1997, que deu grande visibilidade para o Movimento dos Sem Terra e levou a discussão sobre a reforma agrária para a esfera federal. Tais exemplos demonstram como indica Godoi (2005), que uma revisão histórica das próprias telenovelas enriquece as pesquisas, não somente pelo resgate dessas obras que compõem o cenário cotidiano nacional, mas também por representarem muito do imaginário de um povo que, diferentemente dos europeus ou norte-americanos, criou a partir das novelas, um ambiente no qual se pode compartilhar a experiência de pertencimento.

Por essa lógica, alerta Giovani para a participação ativa do público que sempre intervém de alguma maneira nas histórias, fazendo releituras das mesmas. No caso das reprises, que por vezes fazem tanto sucesso quanto da primeira vez, nota-se que o público, sempre muito criativo, reinventa os enredos e aponta novas interpretações. Em concordância com esse raciocínio, os educandos que também fazem parte desse público podem contar suas próprias histórias a partir destas telenovelas. Portanto, narrativas podem ser recriadas em salas de aula com base nos processos históricos, ou mesmo uma cena pode ser reinterpretada com base no conhecimento adquirido em sala de aula, possibilitando o exercício e a capacidade de análise e observação dos alunos, que estarão sujeitos a olhar para as narrativas audiovisuais aqui tratadas, com olhar mais crítico. Isto é, os alunos, atuando também como telespectadores, tal qual a maior parte do público leigo sempre faz, podem contribuir com o conhecimento e a qualidade do ensino de história no Brasil.

Conquanto, nota-se através dessas considerações que a relação entre a história e as telenovelas ainda é pouco incentivada. A necessidade dessa relação pode ser justificada pela própria Escola dos Annales, que propunha uma história a partir de uma construção coletiva, e não mais aquela que somente privilegiava determinadas camadas sociais. De tal maneira, a novela pode contribuir como um instrumento de oposição à historiografia tradicional, a fim de que novos sujeitos históricos possam abrir espaços para uma “história vista de baixo”. Nesse sentido assevera Marc Bloch (2001) que cada ciência tem sua estética de linguagem, que lhe é própria e os fatos humanos são, por essência, fenômenos muito delicados, entre os quais muitos escapam à medida matemática.

Por fim, conclui-se que a novela, como observa Giovani José da Silva, assim como a historia, é filha do seu tempo, e por isso, deve ser entendida como um produto da sociedade. Todavia, faz-se necessário entender que nenhuma produção humana é inocente, pois todas elas atendem a determinados interesses. Dessa maneira, no caso dessa produção específica, a fim de ser utilizada no ensino de história, caberá ao historiador trazer luz a essa fonte tão vasta e ao mesmo tempo ainda tão pouco explorada pelo campo historiográfico.

Referências:

BLOCH, Marc. Apologia da história. Ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: EdUNESP, 1991, pp. 39-62.

GODOI, Christian. Bibliografia Comentada: O Brasil Antenado: a sociedade da novela. Grupo de Estudos sobre Práticas de Recepção e Produtos Mediáticos – ECA-USP. Novos Olhares, número15, 2005.

MARCONDES FILHO, CiroTelevisão: a vida pelo vídeo, 1988. APA. Marcondes Filho, C. (1988).  São Paulo: Moderna.

*Thainara Dutra Tôrres é estudante no curso de Licenciatura em História da UFVJM e produziu este texto para a disciplina de Laboratório de Metodologias e Tecnologias do Ensino de História, ministrada pela profª Drª Vitória Azevedo da Fonseca.

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